DAlila Teles Veras

 

 

Poemas vertidos para o espanhol 
por Margarita lo Russo

 

da saúde

 

sala de espera quatro

mãe recente, bebê ao colo, para a mãe em vias de: - cresce cinco milímetros por dia, engorda trezentos gramas ao mês, emagrece depois de nascido, mas recupera o peso após o primeiro mês de vida. engordei quinze quilos. um horror! dura espera. dói, mas passa...

a vida-matemática, certeira e fatalista

 

de la salud

sala de espera cuatro

madre reciente, bebé en brazos, para la madre en vías de:

-crece cinco milímetros por día, engorda trescientos gramos al mes, adelgaza después del nacimiento, pero recupera peso luego del primer mes de vida. engordé quince kilos. un horror! dura espera. duele, pero pasa…

la vida- matemática, exacta y fatal.

 

 
   

 

Espelhos

Meu pai, no ocaso

 

Compulsivamente
fotografa
:
a flor
o jardim
o cão
a paisagem
a mobília
a casa
o carro
os filhos
os netos
ele mesmo
foto da foto

Aprisiona o olhar
(e admira-se)
ignorando a finitude
: frágil e derradeiro legado

 

Espejos

Mi padre, en el ocaso

Compulsivamente
fotografía
:
la flor
el jardín
el perro
el paisaje
los muebles
la casa
los hijos
los nietos
a sí mismo
foto de la foto

Cautiva en la mirada
(y se admira)
Ignorando la finitud
: frágil y final legado.

 
   

 

Retratos

Serei eu
(desenhada, naif, acadêmica
pontilhada, caricaturada)
alma roubada
aprisionada em
tão díspares celas?

sendo eu, já outra
sendo outras, ainda sou
serei eu?

 

Retratos

Seré yo
(naif, puntilleada, académica
dibujada, caricaturizada)
alma robada
atrapada en
celdas diferentes?

siendo yo, ya otra
siendo otras, todavía soy
seré yo?

 

 
   

 

Vestigios

Desvio


O calor desafia o outono
flores abrem-se tontas
à luz enganosa de verão
– natureza violada

Minha mãe agoniza
(máquinas, balões, computadores,
tubos, luvas, gases, batas, relógios,
pomadas, seringas, fraldas, algodão
:
(ar)tificial saúde)
– desvio de percurso

 

Vestigios

Desvío

Calor que desafía al otoño
flores que se abren tontas
a la luz engañosa del verano
-naturaleza violada.

Mi madre agoniza
(máquinas, computadoras, tubos,
guantes, gasas, batas, relojes, ungüentos,
jeringas, pañales algodón
:
(ar)tificial salud)
-desvío en el camino

 

 
   

 

Solidões

Los hombres vivimos juntos,
pero cada uno se muere solo
y la muerte es la suprema soledad.

Miguel de Unamuno

 

Dizias-me
:
– não quero,
mas qualquer dia
terei que partir

Intuías
:
a proximidade
a solidão da viagem
a dispensa de acompanhante

Temias
:
do parto, sabias
(contavas)
da morte, mistério
(calavas)

Parto e morte
(solidões assemelhadas)
:
origem, ambos

 

Soledades

Los hombres vivimos juntos,
pero cada uno se muere solo
y la muerte es la suprema soledad.

Miguel de Unamuno

Me decías
:
-no quiero,
más cualquier día
tendré que partir

Intuías
:
la proximidad
la soledad en el viaje
sin acompañante

Temías
:
del parto, sabías
(contabas)
de muerte, misterio
(callabas)

Parto y muerte
(soledades similares)
:
principio, ambas

 

 
   

 

Um corpo não mais


Memória

Em meu dedo
o teu dedal

(tento, mãe
costurar tua memória
prender-te ao que me resta)

Incertos pontos
que a vista embaçada
não deixa urdir

 

Un cuerpo, nada más

Memoria

En mi dedo
tu dedal

(intento, madre
hilvanar tu memoria
prenderla a lo que me resta)

Inciertas puntadas
que nublan mi mirar
y no me dejan urdir

 

 
   

 

Legado

Depois que te foste
vejo-me em ti
(gestos
gostos
passos)
Repasse genético
atavismo a cumprir-se

 

Legado

Después de tu partida
me veo en ti
(gestos
gustos
pasos)
Herencia genética
atavismo a cumplirse

 
   

 

 

Solilóquios

Palabra e mistério

Só uso a palavra para compor meus silêncios
                            Manoel de Barros

 

(

               )

Além do mais
sabe-se
os mistérios residem
tão-somente
nas coisas inauditas

 

 

Soliloquios

Palabra y misterio

Só uso a palavra para compor meus silêncios
                           Manoel de Barros

 

(

               )

Después de todo
se sabe
los misterios residen
tan sólo
en las cosas inauditas

 

 
   

 

Avareza

Miséria cultivada

"Que é a avareza? Viver sempre
na pobreza pelo receio da pobreza"

São Bernardo

 

Fome com fome mitigada
fome a esperar outra fome
fome armazenada
fome como fonte
riqueza jamais saboreada

 

Codicia

Miseria cultivada

"Que é a avareza? Viver sempre
na pobreza pelo receio da pobreza"

São Bernardo

 

Hambre con hambre mitigada
hambre a la espera de otro hambre
hambre almacenada
hambre como fuente
riqueza jamás saboreada

 

 
   

 

INÉDITOS E DISPERSOS

 

O neto e o avô

 

 

Lentos, seguem

os pequeninos pés

dos grandes pés ao lado

 

Inseguros e próximos

em seu início o primeiro

o outro no seu final

 

Sabem-se (?), ambos, reféns

da implacável marcha e

(des)cuidados alheios

 

 
   

 

 

nove de fevereiro de 2003

 

 

Sacilotto está morto

morto e só

apenas

um homem morto

em sua câmara mortuária

e seus álacres odores

 

 

Um homem morto

morto e só, como tantos

seu corpo teso e velho

sua face baça

suas mãos alvacentas

ornados de flores mortas

(cromatismo só nas telas

sólido, indesbotável)

 

 

Sacilotto está morto e só

Como sempre esteve

Como todo artista 

 

 

A multidão, do lado de fora

(des)vela

algaravia como honra fúnebre

 
   

 

 

TAMANDUATEÍ - RIO MORTO RIO VIDA

 

 

Samambaias enlouquecidas

bromélias encharcadas

manacás arcoirismando

lírios a rebentar brancuras

quaresmeiras pontuais

atlântica mata

do oceano já distante

: cenário

 

Rochas

uma grota, terra adentro

escuro

silêncios imemoriais

idades não reveladas

Da pedra inerte

um fio débil (lágrimas de Luzia?)

o rito iniciático

: ensaio de vida

 

sina lançada à água

planeja o rio

o longo curso

e as terras a banhar

Nas muitas curvas à frente

(líquido labirinto)

o motivo a nomear

T-amã-ndaeteí, Tamanduatehy

: aborígene marca

 

Antes que encontre outro rio

ribeirões, córregos, tantos

(Guapituba, Meninos, Guarará

Piahy, Moóca, Anhangabaú)

nele vêm desaguar

Gu-api-tui-bae, Guapituba

igualmente sinuoso

principal

(Ramalho, na sua margem

ali plantou a mítica Villa)

: rio que foge do mar


Planalto adentro, o rio

cumpre-se

alarga-se

(várzeas, peixes)

vicinal vereda

que leva e trás

margem a margem

nascente à foz

caudal que alimenta e rega

(lama-arte-cerâmica)

fluída oferenda

trabalho e lazer

Planalto adentro, o rio

atrai

cidades e trilhos

homens distantes

: rio que integra e cria

 

Asfaltos marginais

indiferentes viadutos

a urbe por cima

Agora, do progresso

o sangradouro

fétido caudal

: rio invisível

As águas indomadas

(natureza ferida)

devolvem a agressão

: rio ainda vivo, rio a dizer não

 

 

(poema publicado na coletânea "As cidades cantam o Tamanduateí que Passa", Prefeitura do Município de Mauá, SP, reunindo 25 poetas da região do ABC paulista, 2003)

 

 
   

 

 

10 GRAFITOS PARA VADO DO CACHIMBO

 

 

 

SEM EFEITOS PROGRAMADOS

A COR IMPREVÍSIVEL

 

 

CIDADETELA

OBRA EM ABERTO

 

 

CINZENTACIDADE

INCORPORA ARCO-IRIS

 

 

SOMBRAS NOTURNAS

ABRACADABRA

MATINAL TRANSFORMAÇÃO

 

 

NO RISCO DO RISCO

RASTRO DE CORES

 

 

NA FUGA DO FOGO

O TOM SOBRE TOM

 

 

SUSTO ATRÁS DE SUSTO

MÁSCARA MASCARA MÁSCARA

URBANOS RETRATOS EFÊMEROS

 

 

MADRUGADA:

ABERTA A CORTINA

O Ó DA CIDADE EM ESPANTO

O PALCO NO MURO

 

 

VADERETROVADERETROVADERETRO

VADOVEMVADOVEMVADOVEMVADO

 

 
   

 

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